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Polvos sonham? As mudanças de cor durante o sono que fascinam os cientistas

Os vídeos de polvos mudando de cor enquanto dormem foram vistos milhões de vezes. A ciência descobriu que eles têm duas fases de sono, uma delas surpreendentemente parecida com a nossa. Veja o que se sabe e o que ainda é mistério.

Redação Salud3 ·

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Polvos sonham? As mudanças de cor durante o sono que fascinam os cientistas

Foto: Xavier Caisey / Wikimedia Commons · CC BY 4.0

Na tela, um polvo descansa tranquilo, pálido, quase branco. De repente, a pele se enche de manchas escuras, ondas de cor percorrem o corpo, os olhos se mexem e os braços se agitam. Depois de um minuto, ele volta a ficar pálido e imóvel. Vídeos como esse, gravados em aquários e laboratórios, viralizaram com a mesma pergunta: ele está sonhando?

Um cérebro muito diferente do nosso

Os polvos são moluscos, parentes dos caracóis e dos mariscos, e sua linhagem se separou da nossa há mais de 500 milhões de anos. Mesmo assim, são animais extraordinariamente inteligentes: resolvem problemas, abrem potes, fogem de aquários e reconhecem pessoas específicas. Têm cerca de 500 milhões de neurônios, quantidade comparável à de alguns mamíferos, mas distribuídos de forma bem diferente: dois terços estão nos braços, que podem agir com certa independência.

Por isso, quando os cientistas descobriram que os polvos dormem de forma parecida com a nossa, a notícia surpreendeu. É um exemplo do que os biólogos chamam de evolução convergente: soluções semelhantes que surgem em linhagens muito distantes.

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Dois tipos de sono

Vários estudos, entre eles um publicado em 2023 na revista Nature por pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa (Japão), descreveram que os polvos têm duas fases de sono:

  • Sono tranquilo: o polvo fica parado e pálido, com as pupilas estreitas. É a fase principal.
  • Sono ativo: aparece em episódios curtos, de cerca de um minuto, de tempos em tempos. Nessa fase a pele muda de cor e de textura, os olhos e os braços se mexem, e a atividade cerebral fica parecida com a de quando ele está acordado.

Os pesquisadores verificaram que, se o polvo era impedido de entrar na fase ativa, depois tentava "compensá-la", algo que também acontece com o sono humano. Isso sugere que essa fase tem uma função importante.

É como o nosso sono REM?

Nos humanos, a fase REM (de movimentos rápidos dos olhos) é aquela em que sonhamos de forma mais vívida e em que o cérebro parece processar memórias. A fase ativa dos polvos tem algumas semelhanças: acontece periodicamente, o cérebro fica muito ativo e há movimentos. Alguns cientistas propuseram que ela poderia servir para consolidar memórias ou "revisar" padrões de camuflagem aprendidos durante o dia.

Durante o sono ativo, os padrões de cor que o polvo exibe se parecem com os que ele usa acordado para se camuflar ou se comunicar. Por isso alguns pesquisadores se perguntam se o animal está "repassando" esses padrões, como se ensaiasse enquanto dorme.

Então ele sonha?

Aqui a ciência é cautelosa. Sonhos, como os entendemos, são experiências subjetivas, e não dá para perguntar a um polvo o que ele viveu. O que sabemos é que o cérebro dele está muito ativo e que ocorrem mudanças no corpo que refletem essa atividade. Alguns pesquisadores consideram possível que ele tenha algo parecido com um sonho; outros preferem não tirar conclusões. Por enquanto, a resposta honesta é: não sabemos, mas é uma possibilidade fascinante.

O caso de Heidi

Um dos vídeos mais famosos vem de um documentário em que uma polvo chamada Heidi muda de cor enquanto dorme no aquário de um pesquisador. As imagens rodaram o mundo e despertaram enorme interesse sobre a vida mental dos cefalópodes. Muitos especialistas lembraram na época que interpretar essas mudanças como "sonhos concretos" (por exemplo, que ela sonhava com caçar um caranguejo) é especulação, ainda que bonita.

Por que importa saber como eles dormem

Estudar o sono em animais tão diferentes ajuda a responder uma grande pergunta: por que dormimos? Se o sono com fases parecidas surgiu de forma independente em mamíferos, aves, répteis e até polvos, provavelmente cumpre funções fundamentais para qualquer cérebro complexo, como memória e aprendizado.

Além disso, essas descobertas reforçaram o debate sobre o bem-estar dos cefalópodes. Em alguns países, como o Reino Unido, a legislação já reconhece polvos, lulas e sépias como seres sencientes, e há discussões sobre como eles deveriam ser tratados na pesquisa, na pesca e na aquicultura.

Mais curiosidades do polvo

  • Tem três corações e sangue azul, por causa de uma proteína à base de cobre.
  • Suas ventosas conseguem "sentir o gosto" do que tocam.
  • Pode mudar de cor numa fração de segundo graças a milhares de células especiais da pele.
  • A maioria das espécies vive só um ou dois anos.
  • Alguns usam ferramentas, como cascas de coco ou conchas, para construir abrigos.

Um mistério que nos olha com outros olhos

Os polvos nos lembram que a inteligência e a vida interior podem surgir por caminhos muito diferentes. Talvez nunca saibamos com certeza se eles sonham, mas cada novo estudo nos aproxima um pouco mais de entender como funciona uma mente tão diferente da nossa. Enquanto isso, esses vídeos de cores no escuro vão continuar nos deixando de boca aberta.

Conteúdo informativo. Não substitui a consulta com um profissional de saúde. Aviso médico

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